quinta-feira, 27 de maio de 2010

EM FERIDAS

O que fizeram com você? Como foi que prenderam sua alma nessa gaiola, cortaram suas asas e te deixaram para morrer dentro de si? Quem te ajoelhou, prendeu suas mãos e te deixou sem avisos?


Não precisa ter medo - eu não vim te machucar mais. Eu entendo a sua dor; sua dor já foi a minha dor. Eu senti o mesmo fogo queimar, uma face espelhada assombrou cada sonho e a mesma facada gelada em um olhar. Tem algo dentro de você que fez a minha dor entender a sua. Mas quem sou eu para saber o que eu sinto, o que você sente?


Sei que existe um fantasma que você não quer deixar ir embora, que transformou o seu coração em uma ferida aberta. Eu só posso olhar dentro dele se você permitir, mas isso não me fará chegar mais longe de você; sentindo, você poderá cicatrizar cada ferida. Que tipo de amor poderia te fazer sangrar eternamente? Não existe um amor que te fará sangrar.


Pode dormir, entrar em sonhos sem faces e em mundos sem vozes. Estarei aqui quando você quiser abrir os olhos e assistir ao final da tempestade. Vou observá-la por você enquanto isso. Nada se perderá enquanto existir alguém para enxergar através destas lágrimas.

RUMO À LIBERTINAGEM

Novamente pude avistar a porta aberta, caminhei lentamente enquanto meus pés sangravam ao pisar nos cacos de vidros espalhados pelo chão. Eu não me importava, aquilo não me machucava, eu só queria seguir rumo à liberdade. Rumo à libertinagem.

O céu continuava azul e coberto de nuvens branquinhas feito algodão, e gigantes. Amei, desamei e amei de novo. Tudo aquilo era surreal demais, maravilhoso demais, mas ao mesmo tempo era algo assustador e solitário. Segui em frente deixando as lágrimas detrás da porta, e deixando os pesadelos debaixo do travesseiro sujo e rasgado, porém útil para apoiar minha cabeça, quando na verdade eu não tinha ninguém pra me apoiar.

As pessoas continuavam as mesmas, faces refletindo o cansaço da vida. Meus olhos vagavam atrás de algo diferente, algo que transbordasse felicidade. E ao passar por mim, a menininha sorriu. Serenou meu coração com aquela atitude tão simples e inocente.

Os carros continuavam em trânsitos e o semáforo ainda ia do vermelho para o amarelo, do amarelo para o verde. E vice-versa. Sinal de que tudo ainda era o mesmo. Meus pés estavam frios, minhas mãos geladas e o meu coração, já, trincado. Motivos do qual eu desconhecia, e que reconheceria um dia. Quem sabe.

Então ele chegou e me abraçou. Disse o que eu não queria escutar, mas era preciso ouvir. Seu cheiro tinha mudado para menta amadeirada, seu cabelo estava grisalho e a velhice estava ficando mais evidente, mas o seu olhar ainda era o mesmo, singelo e apaixonante. Disse-lhe que não poderia ficar, dei-lhe um beijo em sua bochecha rosada e parti. Ele acenou de longe e logo desapareceu em meio à multidão.

Corri, o tempo estava contra mim. O coração ia desacelerando aos poucos. O corpo ia perdendo os sentidos. Não senti a queda, e as pálpebras foram se fechando. Eu ainda podia ver um pedacinho do céu que aparecia entre as folhas da gigantesca árvore. Um último suspiro, cheiro de terra..